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Banco Master usou ferramentas digitais para falsificar documentos

Banco Master usou ferramentas digitais para falsificar documentos
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Polícia Federal identifica esquema de fabricação de documentos falsos no Banco Master com uso de Word, PDFs e códigos para criar 2.700 procurações fraudulentas.

Como funcionou o esquema de falsificação de documentos no Banco Master

A investigação da Polícia Federal revelou que a fabricação de documentos falsos no Banco Master operava como uma operação estruturada e sistemática. O esquema envolvia a extração de dados reais de clientes, produção em massa de documentos utilizando ferramentas comuns, separação de páginas de assinatura através de programas específicos e posterior reunião de peças em arquivos PDF para formar dossiês de contratos apresentados como operações legítimas da Tirreno Consultoria ao Banco de Brasília (BRB).

A operação triangular entre a Tirreno, Banco Master e BRB funcionava como um sistema de simulação e repasse de ativos ilíquidos. A Tirreno atuou como empresa de fachada para formalizar R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias de crédito consignado com o Banco Master, que utilizava essas carteiras sem lastro para vendê-las ao BRB. A equipe do Master construiu uma verdadeira "linha de montagem" para forjar documentos e simular a legitimidade das operações.

Extração de dados e produção em massa de procurações

O primeiro passo da fabricação de documentos falsos no Banco Master era obter informações de clientes que haviam realizado operações legítimas. Os funcionários acessavam dados armazenados nos sistemas internos, inclusive relacionados ao CredCesta, um produto de crédito consignado voltado a servidores públicos, aposentados e pensionistas.

Em 2 de julho de 2025, Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office, solicitou a Vinicius Lucas Trentino, analista de Projetos Sênior da área de TI, o levantamento de CPFs através do Microsoft Teams. Vinicius reuniu os CPFs no arquivo cpf_cessao.csv e executou a consulta Contratos_Henrique_Dados.sql no banco de dados interno. O resultado foi exportado para a planilha Dados_cessão.xlsx, enviada por e-mail a Fabrizio e à equipe em 3 de julho.

Com os dados reunidos, Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office, utilizou a função de mala direta do Microsoft Word para produzir as procurações. A ferramenta permite vincular um modelo de documento a uma planilha e preencher automaticamente campos para cada registro. Allan vinculou o arquivo PROCURACAO Master.docx à planilha Base de Geração CCBS AMANHA 1.xlsx, armazenada na pasta Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras, permitindo gerar 2.700 procurações em lote em 20 de junho de 2025.

Problemas identificados na base de dados utilizada

As conversas entre integrantes da área de tecnologia mostram que havia inconsistências na base utilizada para a fabricação de documentos falsos no Banco Master. Em 20 de junho, Rafael Manfrin da Silva e Thiago Ramalho discutiram a filtragem dos dados. Rafael observou que havia CPF de uma pessoa com apenas uma proposta de 2019, afirmando que a lista estava "meio furada". Thiago respondeu que filtrando apenas formalizações havia 328 credcesta-refinanciamento, quando deveria ser a maioria. Os próprios responsáveis pela parte tecnológica identificavam incompatibilidades nos dados utilizados.

Manipulação de páginas de assinatura e códigos programados

A produção dos documentos também envolveu a criação de aplicações específicas. Thiago Ramalho, Rafael Manfrin da Silva e Renato M. desenvolveram aplicações em C# registradas no repositório GitHub do Banco Master. Uma das funções tinha finalidade específica: extrair de arquivos PDF apenas a segunda página, justamente a página de assinatura dos documentos originais.

A perícia identificou um arquivo compactado chamado erros-whatsapp.zip, enviado por Anderson Juliano Caspinelli Garcia a Moacir Lourenço da Silva Junior, contendo 1.833 arquivos PDF com páginas de assinatura isoladas dos Termos de Consentimento. Essas páginas podiam ser reutilizadas na montagem de novos conjuntos de documentos, acelerando o processo de fabricação de documentos falsos no Banco Master.

Assinatura digital e mascaramento de datas

Outra etapa envolvia as Cédulas de Crédito Bancário (CCBs). Henrique Pupo e Henrique Gonçalves Silva extraíram lotes de documentos do sistema idtrust. Em 20 de junho, Fabrizio organizou uma força-tarefa para assinar os documentos, separando 675 CCBs para cada um de quatro operadores: Fabrizio, Henrique, Allan e Daniel Guscuma.

As assinaturas foram aplicadas pelo Adobe Acrobat Reader usando o certificado digital corporativo do Banco Master e o certificado individual de Allan Machado. A perícia encontrou uma das evidências mais fortes da manipulação nessa etapa. Em determinados documentos, a data escrita no corpo da CCB indicava uma data anterior, como 21 de janeiro de 2025, enquanto o registro criptográfico da assinatura digital mostrava que aquele arquivo havia sido assinado em 20 de junho de 2025, às 14h02min39s.

Remoção deliberada de informações de data

A diferença entre as datas também aparecia nos Termos de Consentimento. Para evitar que os documentos exibissem registros capazes de revelar sua origem, Allan Machado pediu a Moacir Lourenço da Silva Junior que removesse as informações de data e hora. A ordem aparece em conversa no Teams de 20 de junho, onde Allan afirmou: "e precisamos excluir a data".

A perícia identificou um exemplo concreto no Termo de Consentimento de Genilson Lima Leal. O documento originalmente apresentava o registro 24/02/2023 13:05. Em edição realizada em 3 de julho de 2025, às 15h26, esse campo foi apagado visualmente. Contudo, a alteração não eliminava todos os vestígios analisáveis pela perícia digital. O documento podia deixar de mostrar a data original na imagem, mas outros registros do arquivo e da assinatura digital permitiam reconstruir a cronologia.

Montagem final e organização de arquivos

Depois de produzidas e alteradas as diferentes peças, elas precisavam ser apresentadas como um conjunto documental coeso. Allan utilizou o PDF24 para juntar os arquivos em um único PDF por operação. A montagem reunia documentos como a CCB, a procuração e o Termo de Consentimento com a informação de data retirada.

Os arquivos finais eram organizados em pastas de rede chamadas Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras, Demanda BRB-Tirreno 299 amostras e Demanda BRB-Tirreno 119 amostras. Assim, diferentes documentos produzidos ou modificados separadamente eram transformados em um único dossiê, apresentado como documentação legítima de operações realizadas anteriormente.

Alteração de comprovantes bancários

A tentativa de apagar rastros chegou também aos comprovantes bancários. Em 25 de junho de 2025, Allan Machado discutiu com Romy Goerck Gentina Klenquen a alteração de comprovantes de transferências realizadas por SPB e PIX. O problema era que os documentos apresentavam informações vinculando as operações ao histórico original.

Allan queria retirar três elementos: o evento, o número do contrato e o histórico. Entre as informações que apareciam no histórico estava a expressão "LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX". A dificuldade era fazer isso em escala. Romy explicou que conseguia alterar um ou outro documento, mas que seria impossível fazer o mesmo manualmente em 2.700 comprovantes, revelando os limites encontrados na própria linha de montagem de fabricação de documentos falsos no Banco Master.

Auditoria e comunicação com a cúpula

As mensagens reunidas pela investigação mostram que a preocupação não era apenas produzir documentos falsos, mas também explicar as inconsistências caso fossem questionadas. Em 23 de junho, Fabrizio comunicou a Alberto Felix de Oliveira Neto que a auditoria da Deloitte estava cobrando informações. A resposta de Alberto foi direta: "esse tem que falar que foi erro operacional na selecao".

A investigação identificou ainda o repasse de amostras da documentação falsificada. Em 12 de junho de 2025, Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, pediu a Alberto Felix um "kit dos 300 com assinatura digital". Alberto respondeu que providenciaria e, minutos depois, informou que naquele momento tinha acesso apenas à CCB e que Allan enviaria os links das procurações e da assinatura. Na sequência, foram enviados arquivos contendo o conjunto de documentos falsificados.

Estrutura e metodologia da operação fraudulenta

O conjunto de evidências descrito pela Polícia Federal revela uma cadeia organizada em etapas específicas. Primeiro, dados de clientes eram extraídos dos sistemas internos. Depois, esses dados alimentavam documentos produzidos em escala através de ferramentas como a mala direta do Word. Páginas de assinaturas eram separadas utilizando códigos em C#. CCBs eram assinadas digitalmente. Datas e informações que poderiam revelar a origem dos documentos eram removidas. Por fim, as diferentes peças eram reunidas em arquivos únicos usando PDF24.

A tecnologia permitia acelerar praticamente todas essas etapas da fabricação de documentos falsos no Banco Master. O objetivo era sustentar documentalmente a existência de uma carteira de créditos consignados atribuída à Tirreno Consultoria. O problema é que, mesmo depois da retirada de datas e da alteração de documentos, a própria estrutura digital deixava vestígios. O choque entre as datas escritas nas CCBs e os registros das assinaturas digitais é um dos exemplos mais evidentes. A perícia conseguiu identificar que documentos apresentados com datas anteriores haviam sido assinados apenas posteriormente, desmascarando toda a operação de falsificação.

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