Trump quer renomear IA para superinteligência há 70 anos

Trump insiste em mudar o termo inteligência artificial para superinteligência. Entenda por que especialistas questionam essa proposta de rebatismo tecnológico.
A campanha de Trump para renomear a inteligência artificial
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem dedicado esforços significativos para transformar a nomenclatura relacionada à inteligência artificial, propondo que o termo seja substituído por "superinteligência". Durante seu discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas no mês passado, Trump argumentou que o nome atual "faz soar como se fosse falsa" e anunciou que pretendia implementar essa mudança em toda documentação oficial norte-americana.
Antes de chegar a essa decisão, o presidente conduziu enquetes em sua plataforma de rede social Truth Social, oferecendo aos seus seguidores opções como "Inteligência Superior", "Inteligência Extrema" e "Inteligência Suprema". Posteriormente, realizou uma segunda consulta comparando "Superinteligência" com "Inteligência Superior", finalmente optando pela primeira denominação. Contudo, Trump não forneceu detalhes sobre como essa alteração terminológica seria implementada no mercado tecnológico ou se a indústria estaria alinhada com essa visão.
A postura do mandatário americano intensificou-se ainda mais quando ele declarou que consideraria "inimigos" aqueles que continuassem utilizando o termo "inteligência artificial" em lugar de "superinteligência", evidenciando o tom político de sua campanha de renomeação.
Por que a inteligência artificial é tão difícil de renomear
O conceito de inteligência artificial não é recente, como muitos podem imaginar. Com mais de 70 anos de existência formal, essa tecnologia evoluiu significativamente e já está integrada ao cotidiano das pessoas, particularmente por meio de aplicações em reconhecimento facial, sistemas de segurança bancária, veículos semiautônomos, dispositivos de casa inteligente e câmeras de smartphones sofisticadas.
Anderson Soares, reconhecido como uma das personalidades brasileiras mais influentes no campo da inteligência artificial e fundador do Centro de Excelência em Inteligência Artificial na Universidade Federal de Goiás, salienta que nem mesmo o conceito de inteligência possui uma definição precisa nas ciências biológicas, naturais ou tecnológicas. Segundo o especialista, "o que chamamos hoje de inteligência artificial está relacionado à capacidade das máquinas de realizar tarefas que associamos à inteligência humana".
Soares critica a iniciativa de Trump, afirmando que "o objetivo de mudar o nome me parece muito mais um contragolpe para paralisar o desenvolvimento da IA. Parece mais um ato político do que efetivamente algo construtivo e que contribua para o desenvolvimento".
Análise especializada sobre a proposta de renomeação
Cleber Zanchettin, professor de Engenharia da Computação na Universidade Federal de Pernambuco e especialista em inteligência artificial, identificou características de estratégia de marketing no discurso de Trump na ONU. O presidente inicialmente declarou "bem-vindos ao novo mundo da superinteligência" e acrescentou "vamos ver se isso vai dar certo", revelando, segundo Zanchettin, uma manobra de comunicação sem efeito prático substancial.
Para o pesquisador Allan Pscheidt, a proposta transcende uma simples mudança na definição científica ou técnica. Na verdade, representa uma demonstração de poder e soberania tecnológica dos Estados Unidos no cenário internacional. Pscheidt estabelece paralelos com a corrida espacial histórica, sugerindo que agora vivenciamos uma competição pela AGI (Inteligência Artificial Geral). Quando Trump propõe o termo "superinteligência", estaria sinalizando ao mundo que os EUA atingirão a AGI em breve, consolidando sua supremacia tecnológica internacional.
Reações de mercado e preocupações públicas
Uma questão crítica levantada por especialistas refere-se ao impacto psicológico de renomear a tecnologia. Zanchettin adverte que introduzir termos como "superinteligência" ou "inteligência suprema" poderia amplificar as percepções de ameaça entre o público geral, aumentando a rejeição à tecnologia em contextos onde a população já apresenta conhecimento limitado e apreensões significativas.
Dados recentes confirmam essas preocupações. Mais de metade dos brasileiros (52%) declararam estar mais preocupados do que entusiasmados com os avanços da inteligência artificial, conforme pesquisa do Pew Research Center. Nos Estados Unidos, cerca de nove em cada dez americanos expressam mais preocupação do que otimismo quanto à possibilidade de a IA superar a inteligência humana, segundo levantamento da CNN divulgado em setembro.
A origem histórica do termo inteligência artificial
O termo "inteligência artificial" não surgiu espontaneamente, mas resultou de pesquisas colaborativas envolvendo profissionais de engenharia, matemática e estatística. Esses pesquisadores buscavam compreender como desenvolver máquinas capazes de demonstrar formas de raciocínio comparáveis ao dos seres humanos.
A formalização oficial do termo ocorreu em meados de 1955, nos Estados Unidos, através do trabalho pioneiro de John McCarthy, Marvin Minsky, Claude Shannon e Nathaniel Rochester. Esses cientistas necessitavam de uma nomenclatura específica para designar suas pesquisas que combinavam múltiplas disciplinas com o objetivo de criar máquinas com capacidade racional autônoma.
Contudo, as investigações sobre máquinas inteligentes começaram anteriormente. Durante as décadas de 1940 e 1950, o matemático e cientista da computação Alan Turing estudava essa possibilidade. Na mesma época, em 1948, Norbert Wiener cunhou o termo "cibernética" para designar estudos sobre sistemas capazes de utilizar informações sobre suas próprias ações para autorregulação. Dentro desse contexto acadêmico, John McCarthy criou a expressão "inteligência artificial" em 1955, buscando diferenciar esse campo de pesquisa da cibernética, com ênfase especial no raciocínio autônomo das máquinas.
Evolução tecnológica e futuro terminológico
Conforme a inteligência artificial avançou e se popularizou, a tecnologia tornou-se parte integral da experiência cotidiana. Mais recentemente, desde 2017, a IA generativa ganhou destaque, possibilitando o desenvolvimento de ferramentas como ChatGPT, capazes de criar conteúdo textual, visual, audiovisual e musical.
Anderson Soares oferece uma perspectiva histórica sobre ciclos tecnológicos, afirmando que "as ondas tecnológicas costumam passar por fases relativamente previsíveis: primeiro provocam medo e desconfiança; depois vêm a aceitação e o encantamento; e, com o tempo, a tecnologia passa a ser compreendida e deixa de parecer algo extraordinário". Essa análise sugere que as mudanças terminológicas podem não ser tão importantes quanto o processo natural de educação e familiarização pública com a tecnologia de inteligência artificial.




