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Mel, café e pescado buscam isenção de tarifas de Trump nos EUA

Mel, café e pescado buscam isenção de tarifas de Trump nos EUA
Fonte: g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2026/07/06/tarifaco-de-trump-veja-como-cafe-mel-e-pescado-vao-tentar-escapar-das-novas-taxas.ghtml

Brasil defende mel, café solúvel e pescado contra novas tarifas de Trump. Setores argumentam competitividade e impacto na inflação americana em audiência públic...

Setores brasileiros em defesa contra novas tarifas de Trump

Representantes de três segmentos importantes do agronegócio brasileiro compareceram nesta segunda-feira (6) em Washington a uma audiência pública para contestar a proposta de novas tarifas de Trump sobre produtos brasileiros. As tarifas de Trump Brasil afetam setores estratégicos como mel, café solúvel e pescado, produtos que, embora não sejam os maiores volumes exportados ao país, tornaram-se alvo da estratégia comercial americana para ampliar seu poder de negociação em questões mais amplas.

A ação conjunta dos setores reflete uma avaliação estratégica sobre o cenário atual. Conforme avaliou Aguinaldo Lima, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), trata-se de uma negociação mais abrangente. "Os Estados Unidos buscam um acordo em temas como minerais críticos, terras raras, PIX, big techs e outros assuntos", observou o executivo, sinalizando que as tarifas de Trump Brasil funcionam como ferramenta de pressão em negociações multilaterais.

Contexto das propostas tarifárias americanas

Em 1º de junho, Trump anunciou tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras, após investigação sobre desmatamento ilegal, pirataria e operação do sistema PIX. No dia seguinte, apresentou taxas adicionais de 12,5% para 60 países, incluindo Brasil, por falhas no combate ao trabalho forçado. Ambas as propostas incluíram listas de exceções destinadas a evitar elevação de preços no mercado americano, mantendo produtos sensíveis como carne bovina fora da incidência das tarifas.

Mel: argumentos sobre supremacia brasileira

A defesa do mel brasileiro foi apresentada por importadores americanos e pela indústria brasileira, representada pela Associação Brasileira de Exportadores de Mel e pela Lambertucci Trade Solution. Segundo Joelma Lambertucci de Brito, diretora da empresa, a estratégia concentra-se em demonstrar a irreplaceabilidade do produto brasileiro.

Dados sobre o mercado de mel brasileiro nos EUA

O Brasil fornece cerca de 83% de todo o mel orgânico importado pelos Estados Unidos. Considerando apenas o mel convencional, esse percentual sobe para 75% das importações americanas. A apicultura americana, predominantemente voltada à polinização e mel convencional, não compete com a produção brasileira de mel orgânico. Esse fato torna impossível a substituição rápida por fornecedores domésticos americanos.

Impactos econômicos previstos

A imposição de tarifas provocaria aumento de preços e potencial falta de mel orgânico nas prateleiras americanas, sem produção doméstica suficiente para suprir a demanda. A conversão de áreas de produção convencional para orgânica exige, no mínimo, um ano de transição, tornando inviável a substituição brasileira em curto prazo. Os importadores americanos, com maior peso político, apresentaram argumentos sobre riscos de prejuízos e perda de empregos no setor de distribuição.

Durante seu trabalho de lobby nos EUA, Joelma Lambertucci detectou desconhecimento significativo do governo americano sobre a importância do mel brasileiro. Em conversas com o Departamento de Agricultura (USDA) e o Escritório de Comércio dos EUA (USTR), ouviu relatos de consumidores que desconheciam a origem do produto. "Não adianta simplesmente ser o maior fornecedor, você tem que realmente propagar", observou, identificando falha na divulgação pela indústria e governo brasileiros.

Café solúvel e vulnerabilidade tarifária

O café solúvel permanece desprotegido nas listas de isenções, diferentemente do café em grão, torrado e moído. A Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel, com apoio da BMJ Consultores Associados, apresentou argumentos sobre dependência americana do produto brasileiro.

Relevância econômica do café solúvel brasileiro

Os Estados Unidos produzem apenas 6% do café solúvel que consomem, importando o restante principalmente do Brasil e México. Em 2024, o Brasil respondeu por 37% de todas as importações americanas de café solúvel. As tarifas sobre esse produto carecem de lógica econômica, considerando que o Brasil não representa concorrência para a indústria americana.

Possíveis motivações das tarifas

Aguinaldo Lima levanta duas hipóteses sobre a inclusão do café solúvel nas tarifas. A primeira sugere erro na classificação de códigos, especialmente considerando que o café solúvel aromatizado foi beneficiado pelas isenções enquanto a versão tradicional permaneceu vulnerável. A segunda hipótese aponta tentativa de reindustrialização do setor americano, embora essa estratégia enfrente limitações técnicas e temporais.

Mesmo que os EUA decidissem aumentar a produção doméstica de café solúvel, ainda precisariam importar matéria-prima. Além disso, a instalação de nova capacidade industrial requer quatro ou cinco anos, período que seria devastador para importadores e consumidores americanos enfrentando inflação de preços.

Pescado: enfoque em sustentabilidade e segurança alimentar

O pescado brasileiro enfrenta possível incidência de tarifas de 37,5% caso as medidas sejam implementadas. A defesa será liderada pela National Fisheries Institute (NFI), a maior associação de pescados dos EUA, conforme informou Eduardo Lobo, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescado (Abipesca).

Argumentos apresentados pelo setor de pescado

A estratégia de defesa repete, em grande medida, pontos apresentados ao governo americano no ano anterior, quando o setor enfrentou tarifas de 50%. O Brasil não compete com a produção americana, sendo a tilápia o exemplo principal: os EUA dependem integralmente de importações para abastecer seu mercado interno desse produto.

O Brasil funciona como fornecedor estratégico e de segurança para os Estados Unidos, que atualmente dependem fortemente da China para suprir parte significativa da demanda por tilápia. A diversificação de fornecedores reduz vulnerabilidades geopolíticas na cadeia de abastecimento alimentar americana.

Padrões e práticas sustentáveis brasileiras

A produção brasileira de pescado segue rigorosos padrões sanitários, trabalhistas e ambientais internacionais, sem incidência de trabalho infantil ou escravo. A pesca brasileira é predominantemente artesanal, realizada por pequenas embarcações familiares, reduzindo impactos ambientais comparada à pesca industrial em larga escala praticada por outros fornecedores.

Em depoimento ao Escritório de Comércio dos EUA (USTR) em maio, Bob DeHaan, diretor jurídico da NFI, ressaltou que os estoques pesqueiros americanos já são explorados em seu limite sustentável. Questões climáticas e geográficas tornam muitas vezes inviável a substituição por produtos domésticos, obrigando fornecedores americanos a recorrer ao mercado internacional.

Atualmente, produtos brasileiros respondem por cerca de 5% de todas as importações americanas de pescado, sendo a China o principal fornecedor. Nos últimos anos, porém, importadores dos EUA vinham ampliando as compras brasileiras como estratégia deliberada para reduzir dependência dos fornecedores chineses.

Perspectivas de negociação e próximos passos

Especialistas avaliam que existe espaço para o Brasil negociar nesta rodada de tarifas, assim como ocorreu em 2025. A participação simultânea de três setores em audiência pública demonstra coordenação estratégica para demonstrar amplitude do impacto econômico das medidas propostas.

A dinâmica das negociações reflete a complexidade das relações comerciais contemporâneas, onde produtos específicos tornam-se moeda de troca em negociações maiores envolvendo tecnologia, minerais críticos e sistemas de pagamento. A capacidade brasileira de contraargumentar com dados econômicos sólidos e apoio de importadores americanos afetados pelas tarifas amplia as perspectivas de sucesso nas defesas setoriais apresentadas.

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