Falta de perspectiva alimenta onda de protestos de jovens na Europa

Entenda como a ausência de perspectiva de futuro, desigualdade social e custo de vida elevado impulsionam uma onda de protestos de jovens simultaneamente na Eur...
A onda de mobilização estudantil que toma as ruas europeias
A falta de perspectiva de futuro tornou-se o combustível principal de uma onda de protestos que varrem simultaneamente cidades em toda a Europa. De Milão a Marselha, passando por Madri, Lisboa, Atenas e muitas outras capitais, milhões de jovens tomaram as ruas nas últimas semanas para expressar sua indignação com as condições de vida, oportunidades limitadas e um sistema que, segundo eles, não oferece esperança.
No último sábado de outubro, mais de 300 mil pessoas foram às ruas na França, com pelo menos 290 manifestantes presos conforme registrou o Ministério do Interior. Simultaneamente, a Alemanha enfrentou confrontos intensos em cidades como Frankfurt, Berlim, Colônia e Hamburgo, onde a polícia utilizou canhões de água para dispersar os manifestantes. Os protestos também marcaram presença em Roma, Florença, Bruxelas e muitos outros centros urbanos europeus, revelando uma mobilização coordenada, ainda que espontânea em sua organização.
Diferenças em relação às mobilizações anteriores
Embora a Europa tenha vivenciado inúmeras ondas de protesto ao longo das últimas décadas, esta mobilização apresenta características distintas. Os protestos pela independência da Catalunha em 2017, os confrontos em Atenas durante a crise da dívida grega em 2015 e os episódios de violência na França durante o primeiro mandato de Emmanuel Macron foram marcantes, porém localizados ou temáticos.
Desta vez, a situação é diferente. Os protestos eclodem simultaneamente em toda a Europa, e a maioria dos manifestantes, sejam pacíficos ou violentos, é jovem. Alguns possuem apenas 12, 13 ou 14 anos. Em Barcelona, durante o último fim de semana, mais da metade dos detidos em confrontos tinha menos de 18 anos. Em Milão, menores de idade também foram presos pela polícia em ações relacionadas aos tumultos. Esta participação massiva de adolescentes e crianças preocupa observadores políticos e especialistas em segurança em toda a União Europeia.
A organização através das redes sociais e a "tiktokização" dos protestos
Um fenômeno notável nestas mobilizações é a forma de organização através de plataformas digitais. As manifestações são frequentemente organizadas de maneira improvisada via TikTok, Instagram e outras redes sociais, levando o ministro do Interior da Bélgica a criticar o que chamou de "tiktokização" dos protestos. Estudantes em França, Bélgica, Irlanda, Espanha, Portugal, Itália, Grécia, Sérvia e Albânia participam de uma mobilização que se estende por mais de 1.600 quilômetros do continente europeu.
Embora sindicatos estudantis participem da organização, os jovens também se inspiram diretamente nas ações de colegas de outros países e continentes. Em Barcelona, a hashtag #InstitutsIndignats nas redes sociais mobilizou estudantes, fazendo referência ao movimento francês Lycées Indignés. O estudante grego Yiannis Papanikolaou, de 17 anos, afirmou à agência AFP que a mobilização na França o inspirava a acreditar que mudanças eram possíveis.
Raízes estruturais: educação precária, custo de vida e estagnação econômica
As reivindicações dos manifestantes refletem preocupações genuínas com a realidade material em que vivem. Na França, os protestos começaram no final de setembro devido a reclamações sobre falta de funcionários nas escolas e precariedade dos prédios educacionais. Em Atenas, alunos e professores protestam simultaneamente por melhorias na educação e contra o alto custo de vida.
A insatisfação com a falta de perspectiva de futuro vai muito além da educação. Os jovens europeus temem que a inteligência artificial reduza suas oportunidades de emprego. Também receiam que o aumento acelerado do custo de vida os impeça de concluir os estudos e de comprar ou alugar uma habitação adequada para formar uma família.
Em Madri e Lisboa, a indignação se concentra especificamente nos preços exorbitantes dos imóveis. Carolina Cruz, de 26 anos, doutoranda em biologia em Lisboa, revelou à Reuters que corre o risco de perder sua moradia porque seu contrato de aluguel está próximo do término. "Sou a primeira pessoa da minha família a ingressar em um programa de doutorado e, mesmo com tudo o que estudei, ainda não consigo me sustentar", afirmou. Riccardo, de 22 anos, participante dos protestos em Milão, explicou que o objetivo é fazer com que as pessoas voltem a discutir esses problemas cruciais.
Acúmulo de crises simultâneas que não foram resolvidas
Segundo Mark Leonard, diretor do Conselho Europeu de Relações Exteriores, a Europa enfrenta um acúmulo de crises sucessivas e simultâneas que nunca foram devidamente resolvidas. "Uma crise se sobrepõe à outra", afirmou Leonard. A crise financeira de 2007 e 2008, a crise migratória de 2015, a crise ambiental, a pandemia de covid-19, a inflação após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 e os conflitos no Golfo criaram uma insatisfação reprimida que agora transborda para as ruas.
Essas crises deram origem a diferentes grupos que Leonard chama de "tribos". O consumo de conteúdo nas redes sociais e os algoritmos reforçam as diferentes visões desses grupos, aumentando a sensação de polarização na Europa. A sensação predominante é que "a minha crise é mais importante do que a sua", um fenômeno previamente observado nos Estados Unidos.
Participação política genuína versus violência oportunista
Nathalie Tocci, ex-assessora do governo italiano e professora de ciência política da Universidade Johns Hopkins, argumenta que não deveríamos nos surpreender com a participação política dos jovens. "Temos a tendência de achar que os jovens são desinteressados e alheios à política, mas, na verdade, são muito engajados. Só que participam de uma maneira diferente, mais ligada à mobilização popular."
Tocci cita o movimento de protestos liderado por estudantes na Sérvia, que recentemente derrotou o líder Aleksandar Vučić nas eleições parlamentares, uma vitória impressionante após mais de dois anos de mobilização contínua. Também menciona o movimento "Fridays for Future" sobre questões ambientais e as manifestações contra ações de Israel em Gaza.
Embora muitos protestos sejam pacíficos e organizados, confrontos e saques ocorrem regularmente. Os serviços de inteligência da França e da Bélgica afirmam que os saques são, em sua maioria, oportunistas, enquanto tumultos resultam de uma combinação de "violência gratuita" e atos de vandalismo deliberadamente organizados por jovens de grupos ultrarradicais de esquerda. Na França, os responsáveis são frequentemente chamados de "casseurs", enquanto na Itália usam-se termos como "maranza" para descrever destruidores de propriedade.
Implicações políticas e eleitorais
Com eleições importantes se aproximando em toda a Europa, os governos enfrentam dilemas. Todos os principais países da União Europeia realizaram ou realizarão eleições nos próximos meses. A eleição presidencial francesa é considerada a mais decisiva para a Europa, com Marine Le Pen aparecendo sistematicamente muito à frente dos adversários nas pesquisas.
Observadores avaliam que os tumultos nas ruas francesas beneficiam Le Pen através do discurso de defesa da lei e da ordem. Na Espanha, Itália, Alemanha e Polônia, partidos nacionalistas que defendem políticas rígidas de imigração também apresentam bons resultados nas pesquisas. Mark Leonard acredita que partidos populistas se tornaram "empreendedores de crises", explorando a instabilidade para atrair eleitores insatisfeitos.
Entretanto, segundo Grégoire Roos, diretor para a Europa do think tank Chatham House, os partidos tradicionais europeus enfrentam uma crise de liderança e legitimidade. O fato de tantas pessoas estarem nas ruas protestando indica que esses partidos não conseguiram lidar adequadamente com os problemas fundamentais que afetam a população.
O enfraquecimento do contrato social europeu
A Europa moderna se baseia no princípio de que os cidadãos pagam impostos e cumprem as leis, recebendo em troca serviços públicos de qualidade, como educação e saúde, além de segurança e uma sociedade estável regida por normas. Porém, esse "contrato social" está claramente enfraquecido.
Diante da onda de insatisfação que toma as ruas da Europa, tudo indica que os protestos continuarão. Novas manifestações de grande porte estão previstas para os próximos dias na França e na Itália. Os governos tentam conter a violência através de detenções em massa e promessas de políticas de "quem quebra, paga". A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, está inclusive responsabilizando os pais por danos causados por filhos menores de idade, com possibilidade de descontos em benefícios sociais.
No entanto, não está claro que novas eleições sejam capazes de acabar com a insatisfação da população. A falta de perspectiva de futuro continua sendo a preocupação central, e enquanto as estruturas políticas não conseguirem oferecer soluções tangíveis para educação de qualidade, habitação acessível, empregos estáveis e segurança social, as ruas da Europa permanecerão um espaço de manifestação e confronto entre uma geração que exige mudanças e um sistema que parece incapaz de fornecê-las.




