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Chilena Declarada Desaparecida na Ditadura Pinochet é Encontrada Viva

Chilena Declarada Desaparecida na Ditadura Pinochet é Encontrada Viva
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Bernarda Vera, considerada desaparecida há 50 anos na ditadura de Pinochet, foi encontrada viva na Argentina. Teste de DNA confirma identidade com 99,9999% de p...

Uma Vida que Ressurge Depois de Cinco Décadas

Bernarda Vera, mulher chilena que durante 50 anos foi oficialmente considerada vítima de desaparecimento forçado durante a ditadura de Augusto Pinochet, encontra-se viva e residente na Argentina. A descoberta extraordinária foi confirmada através de análise de DNA realizada pela Justiça chilena, encerrando um dos mistérios mais intrigantes relacionados às violações de direitos humanos ocorridas no país sul-americano entre 1973 e 1990.

O caso de Bernarda Vera representa uma reviravolta notável nas investigações sobre vítimas da ditadura. Agora com 80 anos de idade, a mulher construiu uma vida longe do Chile, passando por diversos países antes de estabelecer-se na região de Buenos Aires. Sua redescoberta ocorreu em meados de 2024, quando a emissora de televisão Chilevisión a localizou em um balneário de Miramar, ao sul da capital argentina.

O Relatório Rettig e a Versão Oficial do Desaparecimento

Em 1973, quando o golpe de Estado ocorreu no Chile, Bernarda Vera tinha 27 anos, era professora em Puerto Fuy e mãe de uma filha de cinco anos. Politicamente ativa, participava do Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR) e do Movimento Camponês Revolucionário (MCR). Seu paradeiro foi perdido em outubro de 1973, poucos meses após o golpe que levou Augusto Pinochet ao poder.

A Comissão da Verdade e Reconciliação, formada em 1990 durante o governo de Patricio Aylwin, recebeu testemunho dos pais de Bernarda Vera relatando seu desaparecimento. O Relatório Rettig, publicado em 1991, incluiu Vera entre as 1.469 vítimas de desaparecimento forçado no Chile. De acordo com o documento oficial, ela teria sido detida por militares em 10 de outubro de 1973, em Liquiñe, na região pré-andina do sul chileno, e presumivelmente executada junto a outras 15 pessoas.

O relatório indicava que Vera havia sido morta na ponte de Villarrica sobre o rio Toltén, onde os militares teriam atirado os corpos dos prisioneiros na água. Ela foi oficialmente registrada como desaparecida desde o momento de sua detenção. A documentação histórica sugeria que havia sido condenada à morte à revelia em processo relacionado ao ataque à barreira de Neltume, do qual era acusada de participação.

A Narrativa Alternativa: Fuga e Reorganização da Vida

Posteriormente, surgiram dúvidas sobre a veracidade dos eventos que cercaram o desaparecimento de Vera. Um companheiro de militância, José Manuel Bravo, ex-membro do MIR, deixou registro arquivado no Museu de Neltume descrevendo que um grande contingente de pessoas havia conseguido escapar dos militares em outubro de 1973 e fugido para as montanhas.

Bravo atestou que Bernarda Vera, cujo pseudônimo era "Anita", estava entre os escapistas. Seus registros indicam que ela possuía "uma vitalidade que permitia suportar a vida caminhando nas montanhas". No livro publicado em 2012 intitulado "De Carranco a Carrán: las tomas que cambiaron la historia", Bravo revela que permaneceu ao lado de Vera na montanha até dezembro de 1973, dois meses após sua presumida detenção.

Acredita-se que naquele período, Vera conseguiu escapar clandestinamente do Chile com auxílio de Svante Grände, membro sueco do MIR. Transferindo-se para a Argentina, posteriormente viajou para a Suécia com marido argentino e filho recém-nascido. Recebeu visto e autorização de residência sueca em 1978, adquiriu nacionalidade sueca em 1984 e retornou à Argentina no final dos anos 1990, estabelecendo-se permanentemente na região de Buenos Aires.

Confirmação Científica e Procedimento Legal

O ministro extraordinário chileno para causas relacionadas a direitos humanos, Álvaro Mesa Latorre, ordenou análise pericial de DNA que permitiu confirmar a verdadeira identidade de Vera. Os antecedentes científicos, correspondentes ao perfil genético e amostras de seus familiares disponíveis no Banco Genético de Familiares de Prisioneiros e Executados Políticos do Serviço Médico Legal do Chile, determinaram probabilidade de identificação superior a 99,9999%.

Conforme informações do Poder Judiciário chileno, solicitou-se a Vera submeter-se ao teste, ao qual concordou. O procedimento foi realizado através de tribunal de Mar del Plata, na Argentina. Na segunda-feira 27 de julho, o ministro Mesa confirmou pessoalmente à filha de Vera os resultados do relatório pericial.

O Impacto Pessoal: A Filha Procura a Mãe

A filha que Bernarda Vera deixou no Chile em 1973 possuía apenas cinco anos na época. Atualmente com 58 anos, ela dedicou muitos anos procurando pela mãe desaparecida, sem nunca descobrir que estava viva. A presidenta da associação de Prisioneiros Desaparecidos e Executados Políticos de Valdivia, Ida Sepúlveda, amiga próxima de Vera, afirmou desconhecimento total sobre seu paradeiro verdadeiro.

Quando equipes de imprensa revelaram a descoberta à filha, esta manifestou incredulidade absoluta. Conforme relatou a jornalista Florencia Valenzuela, ela não acreditava que sua mãe pudesse estar viva, particularmente porque presumia que teria recebido contato caso tivesse sobrevivido. O impacto emocional foi profundo, gerando confusão e descrença mesmo após a confirmação oficial.

A Questão das Pensões de Reparação e Investigação Política

Outro aspecto complexo do caso envolve questões financeiras. A mãe de Vera recebeu em vida pensão de reparação como familiar de vítima de violações de direitos humanos. Sua filha, encontrando-se em situação de incapacidade, também recebe benefícios associados ao reconhecimento oficial de desaparecimento forçado.

Com a confirmação de que Vera não era efetivamente prisioneira desaparecida, membros da direita chilena, particularmente apoiadores do presidente José Antonio Kast, exigiram investigação para determinar se configurou-se delito e se fundos foram recebidos de má-fé. O Estado iniciou procedimentos para potencial recuperação de recursos.

Cronologia Judicial e Investigativa

A ação judicial sobre o desaparecimento foi aberta em 2009 quando o Programa de Direitos Humanos do Ministério do Interior apresentou queixa. Temporariamente arquivada em 2014, permaneceu inativa até que incongruências no caso fossem identificadas. Em 2025, o Plano Nacional de Busca, iniciativa do governo anterior de Gabriel Boric, retomou investigação após constatar inconsistências.

O advogado Vladimir Riesco, responsável pela ação original, afirmou que a filha prestou declaração indicando nunca manter contato com mãe desde 1973. Testemunhas eram exclusivamente auriculares, sem presença de testemunhas oculares de detenção real. Riesco destacou que a filha sempre agiu de boa-fé, possuindo apenas informações contidas no Relatório Rettig.

Responsabilidades Administrativas e Governamentais

A reportagem televisiva revelou que múltiplas autoridades estatais tiveram conhecimento das incongruências sobre o destino de Vera durante anos sem agir com diligência adequada. O ex-policial Sandro Gaete, participante do Plano de Busca, renunciou denunciando que autoridades governamentais possuíam evidências desde 2024 sem as levar à Justiça formalmente.

Conforme sua declaração, o Estado chileno contava com informações que remontavam a 2007. O governo de Boric afirmou haver enviado antecedentes oportunamente ao ministro Mesa, que abriu investigação levando aos resultados atuais. A administração atual anunciou solicitação de investigações sumárias para determinar responsabilidades administrativas e notificará o Conselho de Defesa do Estado para ações judiciais apropriadas.

Vida Privada e Vontade de Paz

Bernarda Vera conseguiu evitar contato direto com imprensa quando equipes compareceram em seu domicílio. Seu filho Maximiliano conversou com jornalistas transmitindo mensagem clara: sua mãe deseja viver vida pacífica longe de públicos e atenção midiática. Segundo relatos, ela sempre imaginou que este momento de descoberta chegaria, porém permanece decidida a manter a existência discreta que construiu.

A jornalista Valenzuela relatou que Vera "não quer falar do seu passado" e que "só quer viver uma vida em paz". Seu filho reafirmou essa posição, indicando que a mãe não pretende retornar ao Chile nem reengajar-se com sua história oficial de desaparecimento. O caso de Bernarda Vera permanece, portanto, como episódio singular na história das violações de direitos humanos da ditadura chilena, revelando complexidades nas narrativas históricas oficiais.

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